11 de janeiro de 2015

Não chovia la fora


Eu quero arrancar minha cabeça. Quero ver meus olhos explodirem. Ver minha garganta tentando roubar o ar de onde não existe. Estraçalhar meu crânio e de dentro tirar o cérebro. Quero machucar meu cérebro. Quero esfaquear meu cérebro. Declaro meu cérebro culpado. Ele me faz mal. Meu cérebro é cruel. Não entendo o prazer mórbido que minha cabeça tem em repetir, em looping, lembranças que não quero ter. 

Estou sentado na ponta de uma mesa de jantar gigante coberta por um tecido vermelho-morto. Estou de smoking. Estou de vestido. Não estou vestido. Vejo minha mente caminhar em minha direção para me servir, em uma bandeja de prata, as imagens que não quero lembrar. Acorrentado a cadeira, sou obrigado a me servir de visões indigestas. Eu quero vomitar, eu quero arrancar minha boca e meu estômago para ser incapaz de comer. Sinto minha roupa molhada, ensopada, encharcada de água salgada. Chovia do lado de dentro. Me afoguei.

9 de novembro de 2014

ofegante, suado e bêbado

MONSTREUX

Preciso ficar bêbado, raspar o cabelo, comprar roupa velha, meter num canto escuro, nadar pelado, fechar o olho e sentir as luzes na cara de puta que só eu sei fazer. Quero dançar grudado, quero dançar roçando, quero dançar suado. Quero sentir respiração cansada na nuca. Quero beijo mordido, beijo com teus cachos que caem na cara. Cabelos e pentelhos. E arranham-se as costas, o peito e marca-se o pescoço de roxo. Inebriar-me vendo meu pau refletido no teto e rolando num colchão rasgado. É hora de dançar ballet no submundo. De sapatilha, de salto quebrado, de all star rasgado.

Menos gelo e mais álcool. Deitar com tudo rodando, garganta doendo, pé latejando e a roupa manchada nem quero saber do quê.


12 de setembro de 2014

A morte do filho de Deus

Michelangelo, La Pieta _    I want to see this in person!! I love love LOVE this sculpture!!!  I have a small replica at home....

O acinzentado e opaco olho da mãe ao ver o corpo do filho. 

Um ensanguentado corpo que já não assumia feições humanas.
Sacro corpo do homem que quis amar.
 Cordeiro inocente levado ao matadouro.

As autoridades lavavam suas mãos e não assumiam a culpa da morte daquele. Os sacerdotes justificavam a sentença. A multidão ali presente caçoava, regozijava e se alimentava do sofrimento de quem ela acusava de pecador.  
No corpo morto, marcas narravam tortura. Humilhação. Dor. O sofrimento do homem tinha as lágrimas fundidas ao sangue. Que teve esperança de escapar, até que entendeu que não sairia dali.
Covardemente morto e consumido pelo pânico de não poder fugir.
Os assassinos escreveram um letreiro dizendo por que matavam. Queriam que todos tivessem medo e deixassem de amar como ele amou.
O acizentado e opaco olho da mãe com seu filho morto nos braços transbortava uma alma que agonizava. Olhando por entre a carne exposta, ela tenta reconhecer os traços daquele menino que um dia ele foi, que ela amou, que ela embalou e que agora não vive. Dolorosa pietà.


Essa Barbárie dói.
Naquela mãe.
Nos que amam.
Em mim.
Esses relatos, poderiam ser sobre a paixão de Jesus Cristo, mas são sobre o cruel assassinado de João Antônio Donati, aquele que a homofobia também matou.

3 de agosto de 2014

Éden


Dois corpos. Desnudos. Suados. Gemidos. Cada arrepio se contorce na busca do fôlego perdido. O céu florido envolve e aquece aquelas peles sedentas. Adão e Eva despudorados, sem nada que cubra teus sexos. Apenas bicho-macho e bicho-fêmea. Apenas Bicho-macho-fêmea. Bicho que ora é macho, ora é fêmea e ora não é. Paraíso secreto conhecido por só dois amantes. Intimidade máxima. Lugar onde todos os frutos são proibidos. Onde todos os frutos são devorados. Onde apenas seus olhares ditam o que é lei, nada mais. Lugar onde amar pode. amar deve. 

Éden, lugar onde se transborda.

26 de junho de 2014

Fino fio preso pelo bote por seus cachos


Despercebida e preciosa é a beleza da metade.
A metade do segundo que antecede o orgasmo
A metade do copo que ainda é vodka e que não foi devorada pela metade gelo
A metade do lábio que fica dentro da boca alheia.
A metade do pé que toca o chão para se alcançar um beijo.
A metade da roupa que cobre só a parte de cima
A metade de uma respiração que se interrompe para ser invadida por um arrepio
e finalmente, a metade do sorriso que teu olhar me rouba.

Meu bicho-homem que me faz bem. Minha medusa sedutora e vulgar. Meu tesão maior. Meu conforto. Meu lugar. Meu eu fora de mim.

sou tua costela-fêmea que implora teu suor
Sou quem vigia teus cabelos desfeitos no epílogo de noite vadia
Sou dente cravado em suas coxas mordidas
Sou fino fio preso pelo bote por seus cachos.
Sou seu beijo de lado
Seu beijo de cabeça pra baixo.
Seu beijo excitado
Seu beijo mordido
Seu beijo devorado

E quando as horas se confundem. As pernas se confundem. O suor se confunde. Toco meu lábio no seu e percebo que não quero saber o que sou eu e o que é você. Eu só quero ter a certeza de que amanhã poderei olhar seus lábios e dizer: obrigado por estar aqui, eu te amo.


"não há você sem mim, e e eu não existo sem você"
(Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes)