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8 de julho de 2013

O pranto de uma criança de olhos azuis.


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Minha cabeça está confusa. É como se minha mente fosse um salão de festa e meus pensamentos estivessem dançando num passo desordenado de uma dança que não sei dizer qual é. Tudo se move rápido demais e eu não consigo me ater a nada, não consigo ver nada, não consigo compreender nada. Há nesse salão de festas uma criança chorando num canto enrolada num cobertor como se quisesse se tornar invisível. Esse garoto é a única coisa imóvel dentro desse caos. Ele chora porque seus olhos são azuis. Ele vem de um lugar onde todos os olhos são pretos. - Já imaginou ter esses horríveis olhos azuis enquanto todo mundo tem olhos normais?- ele me perguntou entre soluços.  Ele carregava em sua mão magra um óculos de sol com uma perna quebrada. As pessoas gostavam dele quando ele usava aqueles óculos.  Mas com aqueles óculos, ele não consegue ver a lua, justo ele, que ama tanto ver a lua. Ele já tentou pintar seus olhos com giz de cera mas não funcionou. Ele se esforçou tanto, que é triste saber que de nada adiantou. Então ele tentou tinta guache. Fracassou de novo. Ele me perguntou:
 - Onde Deus guarda a tinta que Ele pintou o nosso olho? Por que tinha que faltar tinta justo na minha vez?
Eu silenciei.

Talvez ainda houvesse tinta preta, mas Deus preferiu usar a tinta que coloria o céu, para pintar seus olhos.
Eu o abracei, o ninei e disse:
- O céu deveria se orgulhar de ter a cor dos seus olhos.

20 de janeiro de 2013

Até as 19:00

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Ela estava encostada na cabeceira da cama. Ele sentava na ponta olhando para o relógio, pensando não sei em quê. Ela chorava. Sua respiração banhava-se com suas lágrimas. O cabelo bagunçado grudava na face molhada daqueles olhos de maquiagem borrada. 
- Me deixe ficar até as sete. - ele rompeu o silêncio.
- Por favor, sai da minha casa. Vai pra longe de mim, eu preciso estar só. Eu preciso falar comigo. Eu preciso ser amada por alguém, porque eu confiei isso a você, e você me decepcionou. Olhar seus olhos era a coisa mais doce que me podia acontecer, agora eu só me lembro de como eu sou uma estúpida em acreditar que você seria diferente, que você me trataria como eu mereço ser tratada, que você me faria feliz, que você nunca me faria chorar. Eu acreditei que você nunca me faria chorar, agora não consigo te olhar direito pois as lágrimas já embaçaram minha visão. Será que é tão difícil, pra você, entender que eu não estou bem? Entender que eu não consigo ser boa nem pra mim mesma? Se você me ajudasse a passar pelos momentos ruins, você veria meu sorriso quando tudo estivesse bem. Agora eu só quero que você saia. Por favor vá embora.
- Se eu sair por aquela porta, é pra sempre - pausa - Por favor, não me deixe ir embora.
Ela deitou na cama e continuou a chorar. O relógio devorava o tempo, como já é costume.


19:00

Eles se olharam. Eles se tornaram bicho. Eles respiravam forte. Eles deram o mais visceral e dolorido beijo com gosto de lágrima. Aquele beijou sangrou. Ela queria que ele fosse embora, mas aquele beijo era apenas para dizer: Volte.

2 de novembro de 2012

Da Sé à Barra Funda

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Antes de entrar no trem, ele havia colhido uma rosa. A maior de todas as rosas que ele já vira. No caminho até a estação ele comeu uma coxinha, mas não limpou a boca. Ele usou o guardanapo para enrolar a flor, para que nenhuma pétala caísse. Ao ver aquela multidão roçar-se entre si naquela estação lotada, ele colocou a rosa junto a seu peito. Precisou carregar sua mochila na mão para que ninguém roubasse nada. Ele cheirava a suor. O perfume que passara no começo do dia já não podia ser sentido. As gotas daquele líquido quente corria-lhe a testa.  Vez ou outra ele limpava com a manga da camiseta. Mas não conseguia mexer-se muito naquele vagão lotado. E ele não queria que alguém trombasse acidentalmente com a rosa. De baixo de seus braços, havia um azul escuro e molhado. Sua barba coçava. Sua respiração cansava. 
Por dentro do guardanapo levemente engordurado, a delicadeza da flor sofria o calor daqueles animais falantes, barulhentos, gritantes. Suas pétalas, que antes avermelhava seu aroma, agora, pintavam-se de um marrom pouco vivo. 
O trem freou bruscamente, o homem com a flor no peito quase caiu, ele estava segurando-se apenas com uma mão, mas valeria a pena, quando chegasse em casa, sua mulher abriria um sorriso, lhe beijaria a face e colocaria a rosa morta num copo com água. Um copo transparente com marcas da cola da etiqueta do requeijão. 
Sua mão suja encardia onde ele tocasse, no seu punho escorria um suor preto. A rosa ainda estava no seu peito. Ele a defendia como se guardasse um filho. Quanto mais cuidada fosse a flor, maior seria o sorriso da esposa. 
Estação Barra Funda. Ele saiu do vagão. Saíram ele do vagão. A cada baldeação, mais perto sua casa e sua mulher estavam.
Se aquela rosa não era o amor, eu não sei o que é amar.

25 de setembro de 2012

O outro Luís



         As paredes eram verdes. Não sei por que não amarelas ou vermelhas, ou qualquer outra cor que fosse alegre, ou desse, àqueles ali presentes, um motivo para ter esperança em qualquer coisa. Mas eram verdes, não esse verde bonito de quarto de bebê, era um verde de dor, um verde de lágrimas. Era difícil entender por que o verde. Era como se quisessem escancarar o verde dos vômitos que lavavam os corredores. Ou talvez, de tanto passear por aquele lugar, a morte tivesse escolhido a pintura das paredes. O balcão era cinza. Atrás dele, duas mulheres gordas, suadas, dessas que são casadas há muito tempo e dão para os maridos enquanto tentam lembrar se tiraram o frango do congelador para o almoço do dia seguinte. Uma delas tinha óculos sobre a ponta do nariz, e mexia em alguns papéis como se mexesse em esterco, tamanho era o repúdio que ela tinha a todas aquelas pessoas ao seu redor. Ao lado do balcão havia uma porta que levava às salas de cirurgia ou aos quartos onde os pacientes ficavam internados. 
            Havia naquela sala de espera, um par de sofás, sobre eles, pessoas angustiadas aguardando noticias. Casa cheia, hoje tinha festa no inferno e o capeta está fazendo a lista de convidados. 
          Sentada na ponta de um dos sofás havia uma velha, coberta por uns panos quentes demais para o calor que fazia. Ela carregava em suas mãos murchas e repleta de veias esverdeadas, um terço. Ela apertava cada bolinha como se quisesse a quebrar para mostrar sua fé. Sua boca mexia-se, e às vezes, algumas de suas rezas podiam ser ouvidas como sussurros. Pedia para que seu neto fosse salvo. Ela negociava o que queria, oferecendo em troca, algumas idas à missa de sexta. Ao lado da velha, um homem de terno com a camisa amarrotada para fora da calça abraçava uma mulher em desespero. Ela derramava lágrimas de uma mãe que, a qualquer momento, perderia o filho. Por mais que não gostasse muito do seu enteado, o homem do terno não queria que ele morresse. Ele não gostava, mas não era um ódio de morte. Diante de tanta coisa que era obrigado a suportar, o rapaz era o que menos exigia esforços. 
          Do outro lado da sala, outra família. Em pé, atrás do sofá, um rapaz com um copo de café na mão. Ele andava de um lado a outro impaciente. Fitava a agonia daqueles desconhecidos do outro canto da sala e se desesperava mais. Ele olhava suas irmãs e sua sobrinha no sofá, e não podia evitar o pensamento de seu cunhado morto. Sobre quem cairia a responsabilidade de cuidar delas se não a ele? Ele não estava pronto. 
           Sentada no sofá estava a mulher que podia ser viúva. Comia suas unhas como um faminto diante de um banquete, seus cabelos retorcidos davam àquele semblante mais dor. Ofereceram-lhe um chá para que se acalmasse, mas não queria nada, apenas isolar-se e pedir em suas orações a salvação de seu marido. Ela não era muito afeita a essas conversas com Deus, mas não tinha opção. Isolada dos outros, tentava afastar os maus pensamentos com conversas com o Divino, mas ela não era íntima, aquilo era muito difícil. No outro canto do sofá sua irmã, uma garota mirrada e feia. Ela não queria que seu cunhado morresse. Não entendia muito no que isso faria diferença, mas morte não é algo bom. Não pode ser. Ela ainda tinha esperanças de que um dia ele a olhasse com olhos diferentes e fizesse com ela tudo aquilo que ela ouvia vindo do quarto da irmã. Queria gemer como ela, ou até mais. Queria sentir em si aquilo que fazia volume no pijama do cunhado durante os cafés da manhã. Ela tinha sobre o colo a pequena e doce princesa da família, sua sobrinha, garota que inocentemente dormia e não sabia que em minutos poderia perder o pai. 
           O tic-tac do relógio acompanhava os sussurros de orações e os suspiros angustiados. Ouve-se então passos vindo do corredor. Um médico abre as portas com um semblante fechado. 
           -Por favor, a família do paciente Luís. - Todos olham aflitos - Fizemos o que foi possível, sinto muito. 
           Nesse momento a mãe da primeira família lançou um berro rouco de dor. Seu marido a segurava para que não caísse, ele dizia algumas palavras de consolo, mas nem eram ouvidas. A velha sentiu vontade de quebrar o terço, desperdiçou tanto tempo fazendo rezas para não ser atendida. Sentia em seu peito uma dor que a idade lhe fizera esquecer como era. 
             Do outro canto da sala, a viúva sentia sua alma cobrir-se de Luto. Ela chorava lágrimas que Capitu chorou no enterro de Escobar. Queria morrer junto com seu marido. Sua irmã não sabia o que fazer, sentia-se perdida, então se ocupava para fazer adormecer a pequena que resmungava pelos berros da sala. O cunhado ficou sem chão, e numa tentativa de tomar pra si a liderança do bando, tentava acalmar o pranto de sua irmã. Abraçou-lhe a cabeça por de trás do sofá e olhou pra frente, ele estranhou aqueles desconhecidos chorando pela morte de seu cunhado. Quem eram aqueles que sentiam tanto a ponto de lavar o rosto com lágrimas? Ele ouviu a mãe gritando "meu filho", mas aquilo não possível, ele conheceu a mãe do cunhado, ele até fora no enterro dela. Algo estava errado. 
            -Doutor - disse uma das gordas do balcão - Hoje, dois pacientes chamados Luis deram entrada aqui no hospital. Luís Martins e Luís Oliveira, o senhor pode especificar qual é o Luis que faleceu? 
             Todos cessaram seus gritos e olharam ansiosos para o doutor. Ele pediu desculpas por não saber e pediu alguns instantes para ir conferir. Ele saiu. Todos se olharam. A velha senhora Martins retomou o terço, e voltou suas orações, rezava cada mistério pedindo que o Luís morto não fosse seu neto. A cada Ave-Maria, imaginava aqueles desconhecidos chorando sobre um caixão. Pedia para o anjo Miguel lançar sua espada sobre aquele outro Luís, e que a Virgem Santíssima secasse com seu véu, o sangue do defunto, que havia de ser o outro. 
           O Homem de terno abraçou fortemente sua esposa. Cochichou em seus ouvidos que quem merecia sofrer eram os outros da sala, e que eles estavam livres dessa. Cruzou os dedos e pediu para seus Orixás que matassem o outro Luís. Não poderia ele suportar semanas de masturbação na espera que luto daquela mãe passasse. 
           Do outro lado da sala, a possível viúva criou rapidamente uma intimidade com Deus. Ela apresentava argumentos de como o outro Luis deveria ser o finado, afinal o seu marido tinha uma filha pra criar, uma família pra sustentar. O Cunhado estralou seus dedos com vivacidade, sua respiração se ofegava e ele via-se num limite entre sua vida de solteirão e uma vida de um irmão mais velho que deve cuidar das irmãs e da sobrinha. A cunhada não conhecia muitos santos ou anjos para fazer pedidos. Recorreu a quem conhecia, e pediu para São Longuinho matar o outro Luís. Ela pularia todos os dias três vezes durante um mês. Ela até prometeu que colocaria o celular para despertar para não esquecer. O cunhado não podia morrer. Não antes de uma boa trepada. 
            O médico voltou com uma folha na mão. Fez-se o silêncio. Ele olhou a todos. Ele leu o que estava escrito. Choros. Lágrimas. Desespero. A morte é sempre uma celebração da dor.

5 de julho de 2012

É campeão caralho!




A carne estava mal passada, ele não gostava disso. Mas também pudera, aquele bando de animais esfomeados não aguentam esperar alguns instantes para a carne ficar no ponto. Todos comiam enquanto sujavam os beiços com farofa. Suas mãos gordurosas secavam o suor da testa com um pano de prato. Era possível ouvir o som do ar saindo das ventas daqueles que, de boca cheia, comentavam os lances do jogo.
O bar estava um tanto quanto lotado, mal se via a TV e não era possível escutar a narração, mas que escolha tinha ele, a luz de sua casa fora cortada há uma semana, e o desgraçado do Seu Elias atrasou o pagamento de novo. Pião de obra tem que se foder mesmo.
Pra completar a mesa estava meio torta, a cerveja não se equilibraria em cima senão fosse alguns livros no pé do móvel.
E por falar em livro, o filho do dono do bar não estava no salão. Pra variar! O moleque não gostava muito de futebol, ele ficava em casa lendo uns livros estranhos em outra língua, devia ser inglês ou francês, sabe-se lá. O pai envergonhava-se muito por isso. E quem não se envergonharia? Todos os rapazes do bairro estavam ali, menos o viadinho estudado.
Falta. Juiz ladrão da porra. Por mais que a visão de todos ali já estivesse meio turva, era nítido que o juiz roubou.
Finalmente uma carne no ponto chegou no prato do pião. Esse mês o dinheiro não deu pra comprar a mistura, ver toda aquela fartura por conta da casa era uma maravilha.
Fim do primeiro tempo. Os urros descontentes com o zero a zero tomavam conta do local. No intervalo, algumas noticias sobre a enchente no bairro vizinho, algumas coisas sobre aquela roubalheira de Brasilia, algumas greves... enfim, nada que fosse de relevante para que se prestasse atenção naquele momento, tudo coisas do cotidiano.
Começa o segundo tempo. Ouve-se fogos de artificio e alguns tiros pro alto. O pião sabia quem era quem tava armado, mas melhor ficar na sua. Em boca fechada não entra mosca e nem bala.
Avistava-se subindo a viela, bufando feito uma vaca brava, a mulher do pião, ela subiu pra falar que vieram de novo cobrar o dinheiro que o filho devia e que a escola tinha ameaçado ligar pro conselho tutelar se o rapaz continuasse faltando daquele jeito. O marido pediu para esperar até que o jogo acabasse, então ele resolveria tudo.
Bola no avança no meio de campo. O pião sentia que aquela era a hora. Bola dentro da grande área. a voz do interlocutor se acelerava. O caminho tava livre. Passe de bola. O jogador corre. Coração na mão. Goooool. Comemoração. Todos berravam. O pião gritava até sua voz se perder. Aquele foi o momento que ele percebeu que sua vida não poderia ser melhor.

7 de maio de 2012

Foi assim que morreu Romeu


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Podiam procurar nas camas desarrumadas. Podiam procurar nos parques e restaurantes que eles frequentavam. Podiam procurar no país, ou até mesmo no planeta. Jamais os encontrariam. Naquela noite, eles fugiram pra um outro planeta. Era um planeta diferente desses que lemos em livros de astronomia. Ninguém sabia que ele existia, apenas os dois. De fato não tiveram muito tempo, as malas foram feitas às pressas. Nem o oráculo do mais profundo atlântico saberia dessa fuga. No esconderijo, não precisavam de muita coisa, apenas lençóis brancos e suados, alguns livros, e xícaras para o café. Não existia ar nesse lugar. Aqueles dois amantes respiravam o seu amor. Aquele amor os mantinham vivos. 
Naquele planeta, eles decidiam tudo, viviam sem julgamentos, reprovações e a maior distância que existia entre eles era a distância de um olhar. Suas almas se conectavam. Um só eremita de dois corpos naquela vastidão de terra inabitada e inacabada pela criação de Deus. Suas bocas eram íntimas. Seus pupilas eram irmãs. Suas respirações rimavam. Eles se comunicavam por batimentos cardíacos. Naquele planeta, aqueles dois eram a forma mais bela e divina do amor. 
Aqueles dois amantes respiravam o seu amor. Mas um dia, nasceu o medo.
O medo matou o amor.
Suas gargantas secaram. Suas narinas se fecharam e Romeu deitou sobre o corpo gélido e frágil de quem mais amou. Suas mão se trançaram.  E enquanto o amor os fez viver, a sua falta os entregou aos vermes.

24 de dezembro de 2011

Ele era um atrapalhado.


Ela deitava sobre o colo dele com uma cara de boba. Seu olhar estava perdido no infinito. Nos seus olhos, via-se um brilho por entre a maquiagem escura. Ele acariciava aqueles cabelos macios e trançados e ouvia o que ela tinha a dizer. As palavras saiam de modo estranho, ela não fechava muito a boca pra pronunciar o "u", nem tampouco o "o", o sorriso estampado na sua cara não deixava. Ela contava sobre seu novo namorado, falava como ele era gentil e doce e amável e surpreendente e educado e romântico e...
Ele apenas ria de todos aqueles elogios, idealizações, promessas de um futuro perfeito. Ela estava tão feliz, ele gostava de quando sua amiga sorria tanto por causa de algo. Ele só queria que aquele novo rapaz a fizesse muito feliz. 
Ela rolava pela casa, contando histórias e, às vezes, interpretando algo que só as palavras não seriam capaz de contar, como o modo que o namorado lhe pegava pelos cabelos... Ele sorria, fazia uma piada aqui, outra ali, mas ela nem se importava. Ela sabia o quanto seu amigo era um palhaço, um pobre rapaz que não sabia falar sério.
A hora ia avançando e ela tinha que ir encontrar o seu Romeu. Foi uma despedida rápida. Ela saiu entusiasmada. Ansiosa. As mãos suavam.
No fechar da porta, ele deitou na cama, fechou os olhos e pensou no quão feliz ela estava. Apertou uma almofada contra o peito. Chorou. O que ele não daria para estar no lugar daquele outro?
Os fogos subiam. Jingle bells, era noite de natal.

4 de novembro de 2011

Ela não era a mulher mais linda do mundo

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Ele estava com dificuldades de abrir o sutiã com uma só mão. Talvez estivesse um pouco frouxo,  ou talvez aquela boca no seu pescoço o desconcentrasse. Eles entraram no quarto empurrando a porta que bateu forte contra a parede. Ela sentia-se úmida, como se gozasse antes mesmo daquele viadinho magrelo fazer qualquer coisa.  Quando se deitaram na cama, ele jogou as revistas em quadrinho no chão. Só se ouvia o som dos suspiros e gemidos, que eram soltos naquele ar quente e úmido. Com os olhos virados, o garoto sentia aquela mulher brincar com a mão.  Nunca tinha sido igual. Sua cueca já estava apertando, ele não se aguentava mais.  Ela mordia sua pele deixando pequenos vermelhões. Aquilo doía, mas ele queria que doesse, não queria que aquela dor passasse. Queria sentir aquilo em todo seu corpo.
Ela se deitou ofegante na cama, e deixou  que ele a beijasse.  Ele descia com a boca até chegar naqueles seios fartos e pontudos e enquanto passava a língua naqueles mamilos rosados, sentia o gosto de suor misturado com um gosto estranho que devia ser de algum perfume barato.  
Pouco a pouco eles se despiam.  Jogavam no chão, roupas molhadas, quentes, amarrotadas. Ela era obviamente mais experiente que ele, mas o magrelinho sabia o que fazia.

 Ela o beijava sentada em seu colo, sentindo o corpo dele pulsar dentro do seu. Ele sentia o gosto de cigarro que vinha da boca dela, sentia o suor correndo na sua testa, as unhas rasgando suas costas e aquele calor em seu ouvido. 

Ela segurou na cabeceira da cama, sentia o corpo daquele menino sobre suas pernas, um menino magro, que não devia ter seus dezenove anos. Ele, por sua vez, via uma quarentona descabelada, com maquiagem borrada, dentes amarelados e seios que começavam a balançar mais que o natural. 
Ele berrou como um animal no cio quando terminou. Ela estava satisfeita. Aquela respiração difícil musicava o quarto daquele adolescente-quase-adulto-que-já-sabia-fazer-gozar. Ela levantou, passou a mão nos cabelos loiros tentando-os fazer parecer arrumados. Foi até a janela e acendeu um cigarro.

                - Não te preocupa, teus pais não vão sentir o cheiro aqui não, a fumaça ta saindo pela janela.
                - Me dá um – disse ele, levantando da cama.
                - Tu não disse que não fumava? Não quero te botar no vício garoto.
           - Não fumo, mas gosto de colocar o cigarro apagado na boca. Me dá a sensação de que to cumprindo todo o ritual, com todos os clichês.
                Ele colocou o cigarro na boca, e serviu conhaque em dois copos.
                -Você vai vir aqui semana que vem? - Perguntou ele, oferecendo um dos copos.
                Ela soltou fumaça, deu um gole grande, passou o punho nos olhos.
                - Tu não devia se apegar guri. Tu sabe que eu não to disponível pra esse negócio de vida a dois.
              - To sabendo – disse ele, mexendo a mão fazendo o gelo do conhaque tilintar – Só pensei que, talvez a gente pudesse se ver pra mais uma bem dada.
                - A gente vê. Te cuida criança -  Ela disse apagando o cigarro, e procurando suas roupas.

Quando ela saiu, ele deitou-se na cama, ainda nu, e ficou um tempo imaginando como seria se ela sentisse por ele, o que ele sente por ela.
Tratou de dormir logo, em três horas ele tinha terapia. Mais um dia pra ficar uma hora em silêncio dentro de um consultório.

4 de julho de 2011

ele amou. ela não viu.

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Ele era um garoto invisível. Sozinho. Nunca foi percebido, afinal não passava de um simples e indiferente garoto invisível. Ele ficava horas em frente a um espelho, mexia-se como se provasse um smoking elegante, sonhava com o dia em que sua imagem apareceria refletida e ele veria a cor de seus olhos. Ele queria que fossem pretos. Como os olhos da garota de cabelo vermelho. Fazia tempo que ele a tinha conhecido. Ele a namorava. Ela não sabia. Era segredo. Uma vez ele pensou em vê-la no banho, mas se conteve. O garoto invisível queria esperar um dia especial. A garota do cabelo vermelho chorava muito, certo dia. Ele até sabia por que. Mais uma vez o garoto da blusa marrom a magoou. Quando ele ficasse visível, aquele cara ia ver só. No entanto, naquele momento, ele deveria ser esquecido. O garoto invisível beijou a face da garota. Era ele quem estava lá em todos os momentos. Faça chuva, faça sol. Ele também já chorou, mas ela, nada fez. Ele era apenas um garoto invisível. Todas as cartas que ele escreveu, ela não leu. Todo sorriso que ele deu, ela não viu. Toda vez que ele secou suas lágrimas, ela não percebeu. Ele lhe contava todos seus segredos, ela não ouvia. Ele contava seus problemas, ela não se importava. Ele era apenas um garoto invisível. Um dia ele a abraçou, isso ela sentiu. Ele quis contar para todos, cochichar com seus amigos. Mas não, ele não tinha amigos. Tolo, ele não imagina o tanto de garotos invisíveis que existem por aí.

24 de junho de 2011

Vestibular

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Ele estalava os dedos em frente à tela do computador. Ela estava atrasada, cuido que cinco ou dez minutos. Devia ter pegado trânsito ou algo do tipo. Ou talvez, a internet deve estar com problemas. Diversos pensamentos e desculpas eram criadas a cada segundo na cabeça do rapaz, até o instante e que ela entrava. Ah, a partir daí, ele não queria saber de mais nada. Ele passava o dia esperando aquele momento, o momento de olhar para aquela janelinha e rir à toa. Todos que o olhavam não entendiam. Apenas os dois entendiam, apenas os dois. Ela chegou, tinha tirado uma foto nova, ele ficou parado uns vinte segundos, olhando para aquela junção de traços. Não digo que ela era extremamente linda, mas para ele... ah, para ele, ela era perfeita.
Todos os dias quando eles conversavam, era tão mágico. Aquele dia não foi diferente, ela chegou cansada, explicando o motivo do atraso. Ele se sentia tão bem em ter alguém para reclamar daqueles malditos exercícios de química. Os dois riam fazendo as piadas mais nerds que poderiam ser criadas. Como era cômico saber que a lombada é um buraco elevado a menos um. Ela contava sobre todas as aulas do cursinho, enquanto ele fazia um paralelo com as suas. O vestibular estava tão perto, tanta coisa mudaria.
A cada dia que passava, ele sentia mais falta dela. Não é bonito de se contar, mas algumas vezes ele deixou de estudar algumas coisas só para ficar por alguns minutinhos com ela. E quando digo "com ela", digo apenas olhando a tela do computador, que a cada momento transformava-se com novas frases que o deixavam hipnotizados.
Ele em São Paulo, ela no Paraná. Ambos ligados, ambos apaixonados, ambos enfeitiçados. Ele queria fazer uma surpresa pra ela. O rapaz prestaria o vestibular da cidade dela, e esse era um dos principais motivos pelo qual ele se esforçava tanto para entender aquela hidrostática maldita. Quantas vezes ele já não pensou em desistir, mas permaneceu firme. Por ela. Além da faculdade, estar perto dela era um sonho. Ele se doava tanto por isso. Apenas um abraço, seria o suficiente para ele ficar incrivelmente feliz. Às vezes ele imaginava como devia ser o abraço dela, o gosto de seu beijo, o sabor do seu perfume. Às vezes ele se pegava ensaiando como seria o primeiro "oi", ou o primeiro "te amo" cara a cara.
As noites iam passando, ela rindo das piores besteiras que ele contava. Ele, por sua vez, alimentava-se daqueles doces risos.
Passado o vestibular, o dia mais aguardado era o dia da lista. A lista que o faria incrivelmente feliz ou apenas adiaria o sonho, por mais um ano. Coração palpitava. Ele suava. Tremia. E la estava, seu nome, seu lindo nome entre os outros. Ele conseguiu.Ele passou no vestibular do Paraná. Ele se veriam. Ele a beijaria. Ele a teria pra si.
Contou os segundos pra contar a novidade pra ela. e quando ela finalmente entrou ele foi logo dizendo:
- Tenho uma novidade *---*
- Eu tbm amr *----------------* e a minha é mto melhor que a sua.

Ele riu, claro que não era melhor... mas ele era cavalheiro, ela poderia falar primeiro.
- Sabe oq é amor? eu passei no vestibular de São Paulo, VAMOS NOS VER *---------*

7 de abril de 2011

Ele ouvia "Todo amor que houver nessa vida"

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Os fones de ouvido estavam levemente frouxos em suas orelhas. Mais o da direita. Ele ouvia aqueles agudos do Cazuza que tanto gostava. Aquele dia estava levemente frio, não o bastante para que ele pudesse usar seu cachecol xadrez, mas não era possível sair sem ao menos uma blusa. Ele vestia aquele pullover que tinha ganhado de aniversário. Naquele aniversário que ele bebera até não aguentar mais, num bar estranho, com pessoas meia-boca. Aquele pullover verde com uma pequena mancha na manga.
Quando ele entrou no vagão, trazia em sua mão um livro amarelado sobre algumas teorias ridículas que não lhe agradavam muito. Tentou ler uma ou duas páginas, mas preferiu deixar Cazuza dar seu show em seus ouvidos.
Alguns olhares voltaram para ele. Sempre acontecia isso. Ele não se vestia igual, não pensava igual, não agia igual, isso era espantoso para aqueles outros rostos curiosos que se dirigiam contra ele.
O óculos estava embaçado. Não interessava. O que realmente importava é quando aquela maldita estação chegaria, e ele poderia sair daquele lugar e parar de ouvir a velha que contava sobre seu dia para a amiga, ou aqueles dois homens que discutiam qual era a melhor operadora de celular, ou ainda parar de ficar olhando para aquele maldito ladrãozinho filho da puta que com certeza estava pensando na melhor forma de assaltá-lo.
O metrô parou naquela estação do bairro chique. Ao menos o ladrão poderia desviar a atenção e procurar outra vítima, que não fosse ele, um simples estudante que não tinha dinheiro para porra nenhuma.
O barulho aumentava, o que obrigava o pobre rapaz, subir o volume da música que ouvia. Próxima estação. Mais uma velha. Dessa vez nem a garota de cabelo mal tingido, nem o moleque de óculos de sol (sim, óculos de sol, mesmo naquele dia nublado) levantaram do banco preferencial.
Ele ofereceu o lugar para a idosa. Ela o olhou com um olhar estranho como que se quisesse perguntar "que droga de roupa é essa que ele ta vestindo?". Velha maldita, nem se ofereceu para carregar a mochila dele.
"Ao desembarcar cuidado com o vão entre o trem e a plataforma." Como se alguém ouvisse... Saíam todos como animais do vagão. Finalmente tinha chegado a estação dele, não foi difícil chegar à porta. A estação se aproximava e ele estava inquieto, quando finalmente parou, a porta travou e não abriu.
Ele não se surpreendeu, a indiferença falava mais alto sempre. Através daquele vidro meio arranhado da porta, ele a viu. Ela duelava com o vento para arrumar um cachecol amarelo que trazia no pescoço. Sua pele estava esbranquiçada pelo frio, o nariz era vermelho. Quando seus olhares se encontraram não se soltaram mais, a franja que lhe cobria a testa balançava ao sabor do vento. A música chegou ao refrão. A respiração dele se ofegou. Aqueles instantes eram eternos, aquela menina era frágil, era como se o vento quisesse a devorar. As roupas dela eram tão estranhas como as dele. Por um instante era como se todos se vestissem estranhos e eles dois fossem os normais (talvez fosse isso mesmo que acontecesse). O Maquinista se desculpava pelos problemas técnicos enquanto ela deu seu primeiro sorrisinho, era uma mistura de timidez com uma malícia ingênua, ou talvez uma ingenuidade maliciosa, não sei. Ela não sabia. Ele não sabia. Ele retribuiu com um sorriso meio cafajeste. A porta se abriu. O frio tomou conta do vagão, realmente havia esfriado muito. Ele sentiu uma enorme vontade de beijar aqueles lábios trêmulos e ressecados. Talvez ela também quisesse mas todo o pudor os impediu. Enquanto ele descia e ela subia no vagão, suas mãos se tocaram. Ele sentiu um toque gelado. Único. Ele sentiu o coração dela, sua alma.
Ele esperou por alguns instantes na frente da porta. O vento soprou sobre o cachecol dela que voou pra fora do vagão. As portas se fecharam. O trem partiu. Ele ficou na estação, sozinho, apenas sentindo o cheiro da paixão num pequeno pedaço de lã amarela.