Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens

28 de novembro de 2013

lágrima sorrida

✧ Welcome to my Sparkly Universe ✧ | via Tumblr

Já não escrevo poesia, pois agora eu a vivo quando você faz meu sorrir virar cena de filme francês.
Quero que encostes teus cachos em meu ombro, seu riso no meu, seus dedos nos meus lábios, ferozmente, e quero suas mãos geladas em minhas costas quentes. Você é minha melhor cobiça. 
Dois pra lá, dois pra cá. Num grande fouetté en tournant eu danço ao redor do sol, dançamos um lindo, doce, único e visceral Pas de deux. Eres a  melhor das poesias recitadas.

Me tens livre, 
Me tens alegre, 
Me tens intenso, 
Me tens feliz,
Me tens. 

25 de outubro de 2013

Expurgar

Tudo que eu mais queria é colocar tudo que eu sinto, em versos, numa folha de papel,
mas ultimamente coloco tudo isso num vômito com gosto de bebida barata.

8 de setembro de 2013

Ode Triunfal

MONSTREUX

[...]

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escadas.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

[...]

(Álvaro de Campos)

31 de agosto de 2013

Gostos...

Let me hold you



Eu gosto do seu cheiro. Gosto de quando você entrelaça seus dedos nos meus. Gosto quando você esquenta minha orelha com seus lábios quentes. Gosto quando você fala macio, quando você sussurra. Gosto quando você beija meu sorriso e também quando você faz eu me perder na doçura do seu. Gosto de quando caminhamos juntos. Gosto de quando eu te tenho nos braços. Gosto quando falamos. Gosto quando silenciamos. Gosto de quando você me toca. Gosto de contornar os traços do seu rosto e ver que ele tem poesia. Gosto de quando você morde minha bochecha. Gosto de pensar em você. Gosto de bagunçar seu cabelo.  Sim, eu gosto. Gosto de quando nossas respirações se sintonizam. Gosto quando seu beijo tem gosto de morango com chocolate. Gosto do seu abraço. Do teu laço. Do teu amasso. 

Gosto do teu gosto.
Gosto do que você me faz gostar.
Gosto e não nego
que gosto.
Te gosto,
e como gosto.

17 de julho de 2013

Não sobrou ninguém no local

- acho que vou dormir
- Vai sonhar comigo?
- Se eu começar a sonhar com você, fuja ou me faça feliz.

8 de julho de 2013

O pranto de uma criança de olhos azuis.


Tumblr

Minha cabeça está confusa. É como se minha mente fosse um salão de festa e meus pensamentos estivessem dançando num passo desordenado de uma dança que não sei dizer qual é. Tudo se move rápido demais e eu não consigo me ater a nada, não consigo ver nada, não consigo compreender nada. Há nesse salão de festas uma criança chorando num canto enrolada num cobertor como se quisesse se tornar invisível. Esse garoto é a única coisa imóvel dentro desse caos. Ele chora porque seus olhos são azuis. Ele vem de um lugar onde todos os olhos são pretos. - Já imaginou ter esses horríveis olhos azuis enquanto todo mundo tem olhos normais?- ele me perguntou entre soluços.  Ele carregava em sua mão magra um óculos de sol com uma perna quebrada. As pessoas gostavam dele quando ele usava aqueles óculos.  Mas com aqueles óculos, ele não consegue ver a lua, justo ele, que ama tanto ver a lua. Ele já tentou pintar seus olhos com giz de cera mas não funcionou. Ele se esforçou tanto, que é triste saber que de nada adiantou. Então ele tentou tinta guache. Fracassou de novo. Ele me perguntou:
 - Onde Deus guarda a tinta que Ele pintou o nosso olho? Por que tinha que faltar tinta justo na minha vez?
Eu silenciei.

Talvez ainda houvesse tinta preta, mas Deus preferiu usar a tinta que coloria o céu, para pintar seus olhos.
Eu o abracei, o ninei e disse:
- O céu deveria se orgulhar de ter a cor dos seus olhos.

23 de junho de 2013

Poucos sabem, mas Prometeu amou o abutre

Sohaib Sehrai | via Facebook

Toda noite eu desisto de você.
Decido parar de me enganar, de idealizar, de perdoar. Decido não sofrer por você.
Pela manhã, o céu claro me faz lembrar seus sorrisos tímidos, seu timbre, o entrelaçar dos seus dedos, suas mordidas. A manhã me traz a vontade de sentir sua pele na minha.
Pela tarde você aparece e com um beijo delicado devora meu fígado, meus sorrisos, meu sono, meus sonhos, meus versos, meus inversos e nem nota isso. Quando a tarde se finda, você parte voando com sua boca ensanguentada.
Então a noite chega, e eu desisto de você. 


O que deu em Prometeu para amar o abutre? 
Quão difícil é parar de achar que vale a pena? 
Prometeu achava que um dia o abutre não o devoraria.
Tolo Prometeu, abutres nunca viram beija-flor. 

1 de junho de 2013

O nós que há em mim.

Large

Quem acha que se conhece por inteiro, ignora as inúmeras possibilidades de se descobrir alguém novo cada vez que vê a lua. Cada vez que meu olhar toca uma pupila nova, é como se ele implorasse: Me conheça, me descubra, saiba quem eu sou, mas por favor, me apresente esse novo eu que quero tanto levar para passear, tomar um sorvete de morango. 
Quantos sorrisos cabem na minha boca? Quantos olhares cabem no meu olhar? Quantas vezes seu coração pulsa em cada batida? De quantas maneiras você sabe secar uma lágrima?
Se um dia as pupilas pararem de descobrir quem sou eu, é porque a banda parou a valsa e meu eu se esgotou.

21 de abril de 2013

Ódio insuficiente

Tumblr_m5a9iairpu1rxvx6so1_500_large

Quando teu ódio por mim não for suficiente, eu imploro que me ames. E que me ames loucamente pois só o amor é capaz de destruir com dor, fazer cada palavra soar como uma chicotada e cada lembrança ser como uma agulhada na pupila.

9 de fevereiro de 2013

sorriso como tatuagem

Tumblr_lihpvhdhyx1qg55p1o1_500_large

Mal nascia o sol e bateram na minha porta. Era um moço gordo que queria roubar o meu sorriso, mas eu não deixei. O dia amanheceu nublado e triste - acho que vai chover - mas mesmo assim, eu continuo sorrindo. Meu cabelo amanheceu todo bagunçado, mas eu não consigo parar de sorrir. Tomei um chá no café da manhã que me queimou a língua, em outro dia eu ficaria muito bravo, mas hoje? Hoje eu sorri. Eu queria ter dormido até mais tarde, mas me acordaram cedo, isso poderia me deixar com um mau humor terrível, mas eu só quero sorrir. Um sorriso grande e inocente como de um bebê. Minhas bochechas já estão doendo, elas estão cansadas de segurar esse sorriso,  mas hoje, nada, nem ninguém vai tirá-lo do meu rosto, porque hoje, eu sonhei com você.

25 de janeiro de 2013

Escultura

Um sorriso tímido entre os beijos.
A doce timidez que encanta.
Braços que me envolvem.
Um olhar que aprisiona.
Palavras cochichadas.
Cachos molhados.
Beijo molhado.
Ponta do pé.
Suspiros.
Jujubas.
Você.
Eu.

22 de dezembro de 2012

SZ - 1906

Tumblr_madst0mnzz1rxwjkeo1_400_large

Sim, eu estava chorando. Meu riso foi condenado a estampar minha face, meus lábios já não podem se tocar desde que provaram o cheiro dos seus, desde então convivem separados por uma enorme sequencias de dentes. Eu estou chorando. Eu apenas sinto-me feliz, bem, seguro. Eu lembrava-me das suas mãos. Brancas e delicadas mãos. Elas flutuavam sobre o mármore da mesa, enquanto a minha timidamente se apresentava. Eu tinha vergonha confesso, mas eu necessitava entrelaçar meus dedos nos seus, meu sorrir no seu, minha respiração na sua, minha alma na sua. O tremor dos seus lábios roubava-me o foco, o azul dos teus olhos envolvia-me como o infinito do céu que devora pássaros, nuvens e sonhos. Sua voz acariciava meu sorrir, com o veludo já cantado pelos poetas. Sua mão perdida no frio da mesa dançava uma valsa que não se podia escutar. E quando finalmente toquei-a, senti como se meu mundo se ligasse ao seu, aquele meu indicador no seu polegar gritou ao tempo que a vida seria diferente dali então. Nossas mãos se gostaram, e o encaixar perfeito me mostrou que era ali onde eu deveria estar. Pouco a pouco as mão se tornaram intimas, se tornaram uma, até que você apertou a minha. Aquela apertão dizia algo como: "eu to aqui", "eu quero estar aqui", "eu estou contigo".  Sim eu estou chorando. Choro porque me lembro de como estou feliz, e há quanto tempo não me sinto bem assim, choro porque quando lhe toquei a mão, entreguei-lhe minha alma, e agora ela está muito melhor guardada. Nosso primeiro beijo foi aquele toque de mãos.

17 de dezembro de 2012

preciso.

Tumblr_mf5emjaq1f1qfft4to1_500_large



Beijo na testa. Dedos entrelaçados. Tirar seus óculos quando você dorme com eles e arrumar o cobertor. Sorriso de canto de boca. Olhar envergonhado. Nariz sujo de brigadeiro. Mordida. Beijo no canto da boca. Cócegas. Contar sobre meu dia. Dividir fone de ouvido. Imaginar desenhos nas nuvens. Você deitando no meu peito. Tomar chuva juntos. Te pagar o sorvete. Te fazer um sanduíche  Te escrever esse texto. sussurro. Guerra de pipoca. Te levar a toalha quando você a esquece. Sorrir com narizes grudados. Cartinha debaixo do travesseiro. Olhar você lendo um livro tomando café. Mexer no seu cabelo molhado. Sentir você mexer no meu cabelo molhado. Assistir série juntos. Boa noite antes de dormir...

Coisas simples, mas tão necessárias...

2 de novembro de 2012

Da Sé à Barra Funda

8055261200_a7f9a75043_b_large

Antes de entrar no trem, ele havia colhido uma rosa. A maior de todas as rosas que ele já vira. No caminho até a estação ele comeu uma coxinha, mas não limpou a boca. Ele usou o guardanapo para enrolar a flor, para que nenhuma pétala caísse. Ao ver aquela multidão roçar-se entre si naquela estação lotada, ele colocou a rosa junto a seu peito. Precisou carregar sua mochila na mão para que ninguém roubasse nada. Ele cheirava a suor. O perfume que passara no começo do dia já não podia ser sentido. As gotas daquele líquido quente corria-lhe a testa.  Vez ou outra ele limpava com a manga da camiseta. Mas não conseguia mexer-se muito naquele vagão lotado. E ele não queria que alguém trombasse acidentalmente com a rosa. De baixo de seus braços, havia um azul escuro e molhado. Sua barba coçava. Sua respiração cansava. 
Por dentro do guardanapo levemente engordurado, a delicadeza da flor sofria o calor daqueles animais falantes, barulhentos, gritantes. Suas pétalas, que antes avermelhava seu aroma, agora, pintavam-se de um marrom pouco vivo. 
O trem freou bruscamente, o homem com a flor no peito quase caiu, ele estava segurando-se apenas com uma mão, mas valeria a pena, quando chegasse em casa, sua mulher abriria um sorriso, lhe beijaria a face e colocaria a rosa morta num copo com água. Um copo transparente com marcas da cola da etiqueta do requeijão. 
Sua mão suja encardia onde ele tocasse, no seu punho escorria um suor preto. A rosa ainda estava no seu peito. Ele a defendia como se guardasse um filho. Quanto mais cuidada fosse a flor, maior seria o sorriso da esposa. 
Estação Barra Funda. Ele saiu do vagão. Saíram ele do vagão. A cada baldeação, mais perto sua casa e sua mulher estavam.
Se aquela rosa não era o amor, eu não sei o que é amar.

24 de outubro de 2012

Máscaras não sorriem

Tumblr_lux58ftnxv1qcf1jwo1_500_large

Devia me respeitar assim como eu te respeito. não brinque assim mais. não sou mais como antes.

E depois de tudo, o fim é esse. Morno, amargo, incoerente. Um fim pequeno demais para todo o meio.  Todo o começo. Todo riso. Todo pranto. É como se fosse pra mim, muito mais importante do que é pra você. Do que foi pra você. Talvez, eu sempre estive perto de ti, sem você nunca estar perto de mim. E depois de chorar no seu colo tantas vezes por causa de tantas pessoas que foram embora, agora é você que me deixa. Você me deixa sabendo exatamente como eu ficarei. Com a diferença de que agora, eu terei que suportar só. Dolorosamente só. 
Chega uma hora que cansa ver todos que você ama se afastarem. O que tem de tão em errado em mim? Por que diabos todas as pessoas insistem em me cativar e depois me esquecer? Talvez estejam certas. Quem dera eu poder me abandonar.
Espero que consigas ser feliz. Não que minha falta lhe faça diferença, longe disso. Mas nesse seu sadomasoquismo doentio que você chama de vida é preciso muito esforço para conseguir sorrir de bem consigo mesmo. Lembre-se: máscaras não sorriem. 

Por favor, se a ideia de me abandonar já te passou à cabeça, imploro que não me catives. Sou daqueles garotos que já leram O Pequeno Príncipe e acreditam no eternamente.

11 de outubro de 2012

Veracidade

Tumblr_lyq17o5spl1rody5eo1_500_large

Em seus olhos eu vejo
a agitação da Rua Augusta
em uma noite 
de sábado
com luzes e bebidas
e faço questão
de
só voltar
ao amanhecer.

5 de outubro de 2012

Ao meu travesseiro

Q_lwgubkdck_large

Nada se ouve além do assobio do silêncio e vez ou outra, o barulho dos meus movimentos na cama, ou talvez minha respiração tristonha. Se pudessem ouvir dentro de mim, a cidade não dormiria. No meu peito a dor de uma metade. Na minha mente um caos de medos, dúvidas, indagações, incertezas e essa saudade de você. Essa maldita saudade do que nunca se teve. As luzes estão apagadas para que ninguém veja meus olhos vermelhos, nem meus cílios molhados. Todos acham que meu riso se mantém no escuro, mas só eu sei quantas luzes já apaguei para que ninguém veja meu pranto. Ouço nos fones de ouvido aquela mesma música que você me mandou. Sinto seu cheiro nela. Mas você não está aqui. Abraço meu travesseiro com tanta devoção que um dia ele ainda vai se tornar você enquanto eu durmo. Nesse dia eu acordarei e te encontrarei olhando meu rosto velando meu sono. Ouvirei um bom-dia com um sorriso bobo, talvez eu vire o rosto como quem quer continuar dormindo, mas não se engane, eu só quero que você me dê um beijinho manhoso, me faça  cócegas e se aconchegue nos meus braços para sentirmos nossas peles nuas se tocarem, se conectarem, se amarem. Só então poderei dizer: Eu te amo.

25 de setembro de 2012

O outro Luís



         As paredes eram verdes. Não sei por que não amarelas ou vermelhas, ou qualquer outra cor que fosse alegre, ou desse, àqueles ali presentes, um motivo para ter esperança em qualquer coisa. Mas eram verdes, não esse verde bonito de quarto de bebê, era um verde de dor, um verde de lágrimas. Era difícil entender por que o verde. Era como se quisessem escancarar o verde dos vômitos que lavavam os corredores. Ou talvez, de tanto passear por aquele lugar, a morte tivesse escolhido a pintura das paredes. O balcão era cinza. Atrás dele, duas mulheres gordas, suadas, dessas que são casadas há muito tempo e dão para os maridos enquanto tentam lembrar se tiraram o frango do congelador para o almoço do dia seguinte. Uma delas tinha óculos sobre a ponta do nariz, e mexia em alguns papéis como se mexesse em esterco, tamanho era o repúdio que ela tinha a todas aquelas pessoas ao seu redor. Ao lado do balcão havia uma porta que levava às salas de cirurgia ou aos quartos onde os pacientes ficavam internados. 
            Havia naquela sala de espera, um par de sofás, sobre eles, pessoas angustiadas aguardando noticias. Casa cheia, hoje tinha festa no inferno e o capeta está fazendo a lista de convidados. 
          Sentada na ponta de um dos sofás havia uma velha, coberta por uns panos quentes demais para o calor que fazia. Ela carregava em suas mãos murchas e repleta de veias esverdeadas, um terço. Ela apertava cada bolinha como se quisesse a quebrar para mostrar sua fé. Sua boca mexia-se, e às vezes, algumas de suas rezas podiam ser ouvidas como sussurros. Pedia para que seu neto fosse salvo. Ela negociava o que queria, oferecendo em troca, algumas idas à missa de sexta. Ao lado da velha, um homem de terno com a camisa amarrotada para fora da calça abraçava uma mulher em desespero. Ela derramava lágrimas de uma mãe que, a qualquer momento, perderia o filho. Por mais que não gostasse muito do seu enteado, o homem do terno não queria que ele morresse. Ele não gostava, mas não era um ódio de morte. Diante de tanta coisa que era obrigado a suportar, o rapaz era o que menos exigia esforços. 
          Do outro lado da sala, outra família. Em pé, atrás do sofá, um rapaz com um copo de café na mão. Ele andava de um lado a outro impaciente. Fitava a agonia daqueles desconhecidos do outro canto da sala e se desesperava mais. Ele olhava suas irmãs e sua sobrinha no sofá, e não podia evitar o pensamento de seu cunhado morto. Sobre quem cairia a responsabilidade de cuidar delas se não a ele? Ele não estava pronto. 
           Sentada no sofá estava a mulher que podia ser viúva. Comia suas unhas como um faminto diante de um banquete, seus cabelos retorcidos davam àquele semblante mais dor. Ofereceram-lhe um chá para que se acalmasse, mas não queria nada, apenas isolar-se e pedir em suas orações a salvação de seu marido. Ela não era muito afeita a essas conversas com Deus, mas não tinha opção. Isolada dos outros, tentava afastar os maus pensamentos com conversas com o Divino, mas ela não era íntima, aquilo era muito difícil. No outro canto do sofá sua irmã, uma garota mirrada e feia. Ela não queria que seu cunhado morresse. Não entendia muito no que isso faria diferença, mas morte não é algo bom. Não pode ser. Ela ainda tinha esperanças de que um dia ele a olhasse com olhos diferentes e fizesse com ela tudo aquilo que ela ouvia vindo do quarto da irmã. Queria gemer como ela, ou até mais. Queria sentir em si aquilo que fazia volume no pijama do cunhado durante os cafés da manhã. Ela tinha sobre o colo a pequena e doce princesa da família, sua sobrinha, garota que inocentemente dormia e não sabia que em minutos poderia perder o pai. 
           O tic-tac do relógio acompanhava os sussurros de orações e os suspiros angustiados. Ouve-se então passos vindo do corredor. Um médico abre as portas com um semblante fechado. 
           -Por favor, a família do paciente Luís. - Todos olham aflitos - Fizemos o que foi possível, sinto muito. 
           Nesse momento a mãe da primeira família lançou um berro rouco de dor. Seu marido a segurava para que não caísse, ele dizia algumas palavras de consolo, mas nem eram ouvidas. A velha sentiu vontade de quebrar o terço, desperdiçou tanto tempo fazendo rezas para não ser atendida. Sentia em seu peito uma dor que a idade lhe fizera esquecer como era. 
             Do outro canto da sala, a viúva sentia sua alma cobrir-se de Luto. Ela chorava lágrimas que Capitu chorou no enterro de Escobar. Queria morrer junto com seu marido. Sua irmã não sabia o que fazer, sentia-se perdida, então se ocupava para fazer adormecer a pequena que resmungava pelos berros da sala. O cunhado ficou sem chão, e numa tentativa de tomar pra si a liderança do bando, tentava acalmar o pranto de sua irmã. Abraçou-lhe a cabeça por de trás do sofá e olhou pra frente, ele estranhou aqueles desconhecidos chorando pela morte de seu cunhado. Quem eram aqueles que sentiam tanto a ponto de lavar o rosto com lágrimas? Ele ouviu a mãe gritando "meu filho", mas aquilo não possível, ele conheceu a mãe do cunhado, ele até fora no enterro dela. Algo estava errado. 
            -Doutor - disse uma das gordas do balcão - Hoje, dois pacientes chamados Luis deram entrada aqui no hospital. Luís Martins e Luís Oliveira, o senhor pode especificar qual é o Luis que faleceu? 
             Todos cessaram seus gritos e olharam ansiosos para o doutor. Ele pediu desculpas por não saber e pediu alguns instantes para ir conferir. Ele saiu. Todos se olharam. A velha senhora Martins retomou o terço, e voltou suas orações, rezava cada mistério pedindo que o Luís morto não fosse seu neto. A cada Ave-Maria, imaginava aqueles desconhecidos chorando sobre um caixão. Pedia para o anjo Miguel lançar sua espada sobre aquele outro Luís, e que a Virgem Santíssima secasse com seu véu, o sangue do defunto, que havia de ser o outro. 
           O Homem de terno abraçou fortemente sua esposa. Cochichou em seus ouvidos que quem merecia sofrer eram os outros da sala, e que eles estavam livres dessa. Cruzou os dedos e pediu para seus Orixás que matassem o outro Luís. Não poderia ele suportar semanas de masturbação na espera que luto daquela mãe passasse. 
           Do outro lado da sala, a possível viúva criou rapidamente uma intimidade com Deus. Ela apresentava argumentos de como o outro Luis deveria ser o finado, afinal o seu marido tinha uma filha pra criar, uma família pra sustentar. O Cunhado estralou seus dedos com vivacidade, sua respiração se ofegava e ele via-se num limite entre sua vida de solteirão e uma vida de um irmão mais velho que deve cuidar das irmãs e da sobrinha. A cunhada não conhecia muitos santos ou anjos para fazer pedidos. Recorreu a quem conhecia, e pediu para São Longuinho matar o outro Luís. Ela pularia todos os dias três vezes durante um mês. Ela até prometeu que colocaria o celular para despertar para não esquecer. O cunhado não podia morrer. Não antes de uma boa trepada. 
            O médico voltou com uma folha na mão. Fez-se o silêncio. Ele olhou a todos. Ele leu o que estava escrito. Choros. Lágrimas. Desespero. A morte é sempre uma celebração da dor.